Ásia, Camboja 0

Aventura no Camboja

Por Julia Meissner

 

Tenho que começar a história da minha viagem para Camboja, na Tailândia. Minha amiga e eu estávamos viajando pela Tailândia e depois de algumas semanas num país muito lindo e cheio de turistas (o que incomodava um pouco), estávamos felizes de ter decidido atravessar a fronteira para o Camboja, um país que parecia menos explorado e com menos turistas. 

 

Para ser sincera, não sabia muita coisa sobre o Camboja. Sabia apenas que era um dos países mais pobres do mundo, que tinha tido um genocídio nos anos 70, e que tinha templos muito antigos.

 

No nosso guia, nos informamos sobre como chegar na fronteira e como atravessá-la. Parecia ser muito fácil. De uma ilha no leste da Tailândia, pegamos uma balsa por volta das 11 da manhã. Ao chegar em terra firme, pegamos um táxi (tipo coletivo) para a cidade de Trat, e, de Trat, finalmente um ônibus para a cidade de Hat Leh, que fica na fronteira com Camboja. Chegando na fronteira, ao descer do ônibus, fomos atacadas por pessoas que queriam oferecer serviço de visto, táxi etc. Mas conseguimos nos livrar da situação e passamos pela fronteira. Do outro lado era a mesma coisa: “Hello my friend, welcome to Cambodia! Do you need a hotel? I can help you with the visa! I have a taxi! Where’re you from….”.

camboja

Já estava começando a escurecer e tinha só nos duas e muitos homens. Nem um outro turista louco como nós, atravessando a fronteira meia hora antes dela fechar. Bom, quando chegamos na migração, o policial nos disse que precisávamos de visto, que precisaríamos pagar por esse visto, e que sem ele não entraríamos no Camboja. Vixxxeee! Não tínhamos dinheiro cambojano, não aceitava cartão e a casa de câmbio cambojana já tinha fechado. Única solução: atravessar a fronteira de novo para Tailândia e trocar dinheiro com um câmbio péssimo. Mas tudo bem…conseguimos tudo isso, acompanhadas por pessoas que queriam preencher nossos papeis de visto (I can help you my friend;)).

 

Finalmente estávamos com os vistos nos passaportes, dentro de um táxi com motorista obviamente “chapadasso”. Como já era noite, tínhamos que dormir na cidade da fronteira e na manhã seguinte pegamos uma van para Sihanoukville, uma cidade de praia no sul do país. Como o país  não tinha muitas pontes, e as que tinham ainda estavam em construção, a viagem para Sihanoukville se tornou uma aventura. Toda vez que um rio cruzava nosso caminho, tínhamos que atravessar o rio com balsas improvisadas com pneus de caminhão ou vários barquinhos juntos. Incrível como as pessoas são criativas. As balsas atravessaram com várias vans, carros, animais, pessoas, sem nenhum problema. Conhecemos pessoas maravilhosas e super interessantes durante essa viagem, como por exemplo um Algeriano que já estava viajando por mais de 10 anos e que tinha muitas histórias para contar. E como sempre tinha fila para pegar as balsas, sempre tinha tempo para conversar com os moradores das vilas na beira do rio e dar umas voltas. Foi uma viagem linda.

Camboja balsas

 

Quando chegamos em Sihanoukville, o Algeriano nos indicou uma pousadinha linda, com um bar no terraço, que era de um neozelandês. As praias de Sihanoukville são bonitas e não muito cheias. Tem vários restaurantes, barzinhos e cafés com livraria nas praias e no centro. Quem gosta de ficar em lugares não tão lotados de turistas, está no lugar perfeito. Infelizmente, nos 4 dias que ficamos lá, choveram 3, mas aproveitamos a chuva para ficar nos barzinhos, restaurantes e cafés, conversar com as pessoas e fazer amizade.

chuva no camboja

 

Depois de 4 dias saímos de Sihanoukville e pegamos um ônibus para Phnom Phen, a capital, uma viagem de mais ou menos 4 horas. Phnom Phen é uma cidade grande com várias atrações, museus, templos. Vale a pena visitar o palácio do rei de Camboja, que tem algumas partes abertas para o público. Tem vários templos, como por exemplo o templo Vat Botum do ano 1422.

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No sul da cidade tem um “memorial”, os Killing Fields.  Durante a ditadura dos Khmer Rouge (um partido comunista) entre 1975-1979 esse lugar servia como lugar de execução, onde foram executados muitos dos entre 1,7 e 2,2 milhões de pessoas (não foram encontrados todos os corpos) dentre professores, estudantes, mecânicos, intelectuais e oposicionistas. O lugar foi mantido quase da forma como era antes, com um templo de vidro cheio de ossos, placas com textos que explicam a historia e um campo. Como eu estava lá durante a época de chuva, esse campo estava todo cheio de lama e molhado, tinha pedaços de roupa saindo da terra e como explicaram os guias, até hoje na época de chuva aparecem sempre restos mortais. A sensação é pesada e triste. Como que essas coisas podem acontecer, como que seres humanos são capazes de fazer isso, e porque isso se repete sempre no mundo inteiro? Como essa parte da história de Camboja é muito nova, tem ainda muitas testemunhas vivas e envolvidos na administração dos museus, como guias, etc. É muito interessante. Acho uma oportunidade ótima ouvir toda a história em primeira mão, ao vivo.

 

Quem quiser se informar mais sobre o genocídio, pode visitar o museu do genocídio (Tuol-Sleng), que era uma prisão e um centro de tortura. Tem várias fotos, filmes, equipamentos originais de tortura e muito mais. O museu é muito informativo.

 

No ano que eu fui tinha um bairro cheio de bares, hostels, restaurantes na beira do lago Boeung Kak. Passamos uma noite num bar com vista ao lago e ao por do sol, com musica boa, pessoas agradáveis e conversas ótimas. Um lugar maravilhoso. Pelas mídias e por alguns blogs de viagens fiquei sabendo que esse lago infelizmente não existe mais. Um rico governador comprou o terreno, encheu o lago com areia e começou a construir um bairro de luxo, expulsando os moradores ilegalmente e fechando os restaurantes, bares e hostels que tinha ali. Infelizmente, e como sempre, o dinheiro é o que tem o poder na maior parte do mundo, tem o poder de destruir um bairro inteiro, cheio de vida, restaurantes, bares, hotéis – a base de vida para as pessoas que viviam lá.

Nosso próximo destino é Siem Riep, a cidade que fica mais perto do templo de Angkor Wat, que é o templo maior e melhor preservado do complexo dos templos Angkor. Angkor era a capital do antigo império dos Khmer durante o século IX e XV. O terreno  é enorme, tem 200 m²,  é necessário  alugar uma bicicleta ou um Tuk-Tuk (pequena moto com uma cabine para 2 pessoas) com motorista. Como é impossível ver tudo em um dia, compramos um ingresso para 2 dias, mesmo assim não conseguimos ver tudo.

Angkor Wat, Camboja Angkor Wat, Camboja

 

Para quem é leigo, é suficiente visitar o complexo em 01 ou no máximo 2 dias. São muitos templos, e templos parecidos, e no final você tem uma “overdose” de impressões, sendo impossível você aproveitar tudo o que você está vendo. Os templos são lindos, com muitos detalhes e cheio de altares budistas e hindus coloridos. Como ficam no meio da natureza, tem árvores e outras plantas crescendo dentro das construções.

Angkor Wat Angkor Wat, Camboja

Como era época de chuva, tive a sorte de ver um arco-íris redondo. Lindo e impressionante, ele estava circundando a ponta de um templo.

Angkor

Angkor Wat

 

Ao lado de Siem Riep tem uma vila flutuante. Pegamos um barquinho e vimos casinhas de família, supermercados, escolas, igrejas, mesquitas,  restaurantes, hospitais – tudo encima d’água. É muito legal e diferente. Vale a pena alugar um barco com uma pessoa que conheça o lugar e que possa te explicar tudo. Também tem uma casa com os animais que tem dentro do rio, cobras, jacarés, peixes etc.

lago Boeung Kak

lago Boeung Kak

 

Dica para a chegada em Siem Riep: Tenha pelo menos um nome de um hotel que você pretende ficar. Como Siem Riep (Angkor Wat) é o lugar mais turístico de Camboja, o turismo é a fonte principal de renda dos moradores. É uma luta quando você chega na rodoviária. Mil pessoas gritando para você. Por um momento perdi da minha amiga, devido a tantas pessoas me circundando e pedindo para ir para o hotel deles. É uma confusão, você tenta fugir mas não adianta. Minha salvação foi um motorista de Tuk-Tuk que estava com uma placa de uma hospedaria que eu já tinha ouvido falar. Eu gritei: “Eu vou com ele!”, e, do nada, as pessoas sumiram. Então, é só gritar o nome do hotel e as pessoas provavelmente vão desistir de você.

 

No nosso último dia em Siem Riep, levantamos cedo para pegar um barco para Batambang, uma viagem de sete horas. É uma viagem bonita, e com muita aventura. Como não tem banheiro no barco, tem várias paradas em vilas flutuantes, encontros com outros barquinhos e histórias engraçadas de viajantes. Geralmente eles enchem o barco, por isso pode acontecer que você só ache um lugar no teto do barco. Não vai ter sombra e o sol é bem forte. Eu não sabia e deixei meu protetor na mochila, queimei muito neste dia e nas últimas horas fiquei debaixo da minha canga.

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Batambang é uma cidade pequena e não tem muitas atrações, porém é bonitinha, tem restaurantes bons e mercados e feiras de frutas. Eu achei tranquilo e interessante ficar numa cidade não muito turística, ver como é a vida dos cambojanos e como funciona uma cidade que não depende da visita de estrangeiros. Se você pretende ficar alguns dias, vale a pena fazer um curso de culinária. Os hotéis em Batambang são baratinhos e para descansar ficamos em um que tinha um terraço enorme com vista para a cidade inteira.

 

 Há 11 quilômetros de Batambang tem um memorial para as vítimas da ditadura dos Khmer Rouge, as cavernas de Phnom Sampeau. Lá, como nos Killing Fields em Phnom Phen, foram torturadas, mortas e enterradas inúmeras pessoas. Hoje em dia o lugar é cheio de paz numa paisagem linda.

 

 

Batambang foi ótimo como último destino em Camboja. Relaxamos, comemos bem, conhecemos a vida de uma cidade normal e renovamos nossas energias para atravessar uma outra fronteira de volta para Tailândia. A viagem para a fronteira nessa região é bem complicada, demorada e perigosa. Pegamos um táxi compartilhado com dois franceses. Nunca vi uma estrada tão ruim e com tantos acidentes dentro de tão pouco tempo. Carros, caminhões, bicicletas, motos, pedestres – todo mundo junto em uma pista só. Para piorar, nosso motorista tinha no máximo 19 anos e achava legal correr e frear do nada. Até que nós quatro começamos a brigar com ele. Que situação tensa! Mas para pedir desculpas ele parou num lugar que tinha gafanhotos, grilos, baratas e outros insetos grelhados – que delicia ;)!

 

Resumindo, quero dizer que Camboja é um país lindo, com pessoas interessadas e receptivas, comida diferente e gostosa e além disso um país seguro (exceto a estrada para a fronteira tailandesa). Porém você deve saber que em Camboja  tem muita pobreza e uma história bem pesada. Esteja preparado para ver muitas pessoas mutiladas (Camboja ainda é um dos países que tem mais minas no mundo), pedindo dinheiro, placas avisando para não sair do caminho por causa das minas, crianças trabalhando até a madrugada, e muito turismo sexual.

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Camboja não é um pais para fazer festa, ir para lugares chiques, etc. Para viajar para o Camboja, você deve se interessar pela historia recente e ancestral, e saber lidar com situações nas quais você irá ver coisas que nunca imaginava na sua vida.

Cobra no Camboja

 

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